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Biologia · 8 min de leitura

Vacinas de RNAm além da COVID: câncer, HIV e malária

A pandemia tornou as vacinas de RNAm conhecidas no mundo inteiro, mas a tecnologia não nasceu com a COVID-19 — e seu futuro pode incluir vacinas personalizadas contra o câncer e novas estratégias contra infecções difíceis, como HIV e malária.

Vacinas de RNAm em desenvolvimento contra câncer, HIV e malária

Como funcionam as vacinas de RNAm?

O RNA mensageiro, ou RNAm, funciona como uma instrução temporária. Em vez de entregar diretamente uma proteína do patógeno, a vacina fornece às células uma molécula de RNAm com a informação necessária para produzir um antígeno. O sistema imunológico reconhece esse antígeno e aprende a responder a ele.

Nas plataformas modernas, o RNAm costuma ser protegido por nanopartículas lipídicas. Depois que a mensagem é utilizada, ela é degradada pelas próprias células. O RNAm não precisa entrar no núcleo celular e não se integra ao DNA.

Essa lógica torna a plataforma especialmente flexível. Pesquisadores podem alterar a sequência de RNAm para codificar diferentes antígenos sem reconstruir todo o processo tecnológico do zero. É uma das razões pelas quais a tecnologia está sendo investigada para doenças infecciosas, câncer e outras aplicações terapêuticas.

Uma revisão do panorama clínico publicada em 2026 identificou centenas de candidatos de RNAm fora da COVID-19, embora a grande maioria ainda estivesse nas fases iniciais de desenvolvimento. Portanto, potencial científico não significa que todas essas vacinas estejam próximas de chegar aos hospitais.

Vacinas de RNAm contra o câncer são a aplicação mais avançada

No câncer, a palavra “vacina” pode ter um significado diferente daquele usado para doenças infecciosas. Muitas vacinas de RNAm em oncologia são terapêuticas: elas são administradas a uma pessoa que já teve um tumor para ensinar o sistema imunológico a reconhecer características específicas das células cancerosas e reduzir o risco de retorno da doença.

Uma vacina personalizada para cada tumor

Um dos exemplos mais avançados é a intismeran autogene, anteriormente chamada V940 ou mRNA-4157. Para produzi-la, o tumor do paciente é analisado geneticamente. Mutações capazes de originar neoantígenos — proteínas anormais associadas às células tumorais — são selecionadas, e uma sequência de RNAm personalizada é produzida para apresentar vários desses alvos ao sistema imunológico.

No estudo randomizado de fase 2b KEYNOTE-942, pacientes com melanoma de alto risco removido cirurgicamente receberam a vacina personalizada combinada ao pembrolizumabe, uma imunoterapia, ou apenas pembrolizumabe. Aos 18 meses, a sobrevida livre de recorrência estimada foi de 79% no grupo da combinação e 62% no grupo que recebeu somente pembrolizumabe. O estudo foi relativamente pequeno, com 157 participantes, por isso os resultados precisavam de confirmação em pesquisas maiores.

Essa confirmação está sendo investigada no estudo de fase 3 INTerpath-001, planejado para incluir mais de mil participantes com melanoma de alto risco. O objetivo é descobrir se a combinação realmente previne recorrências melhor do que o tratamento com pembrolizumabe sozinho.

Outras vacinas personalizadas de RNAm também estão sendo estudadas em tumores como câncer de pâncreas. Os resultados iniciais são interessantes, mas nenhuma vacina personalizada de RNAm contra o câncer deve ser tratada como cura estabelecida enquanto os estudos confirmatórios não demonstrarem benefício clínico suficiente.

Vacinas de RNAm contra o HIV: resultados humanos promissores, mas iniciais

O HIV é um alvo extraordinariamente difícil para uma vacina. O vírus apresenta enorme diversidade genética, sofre mutações rapidamente e possui mecanismos que ajudam a esconder regiões vulneráveis de suas proteínas. Uma estratégia importante é tentar induzir anticorpos amplamente neutralizantes, capazes de reconhecer muitas variantes do HIV.

Guiando o sistema imunológico passo a passo

Pesquisadores estão testando abordagens de vacinação sequencial: uma primeira imunização ativa populações raras de células B com potencial para gerar anticorpos neutralizantes e doses posteriores tentam conduzir a maturação dessas células na direção desejada. A plataforma de RNAm é atraente porque permite produzir e atualizar rapidamente diferentes imunógenos para cada etapa.

Em 2025, resultados de um ensaio clínico inicial com candidatos de RNAm contra o HIV mostraram que cerca de 80% dos participantes que receberam uma das formulações desenvolveram anticorpos contra proteínas virais. Isso demonstra que a plataforma consegue provocar respostas imunológicas em humanos, mas ainda não prova proteção contra a infecção pelo HIV.

Esse ponto é essencial: uma vacina pode gerar anticorpos e células imunes em um estudo de fase 1 e ainda assim não impedir a doença em estudos maiores. O desafio agora é transformar respostas imunológicas promissoras em anticorpos com amplitude, potência e duração suficientes para enfrentar a diversidade real do HIV.

Vacinas de RNAm contra a malária ainda estão principalmente na fase pré-clínica

A malária é causada por parasitas do gênero Plasmodium, organismos muito mais complexos do que vírus. O parasita passa por diferentes estágios no mosquito e no corpo humano, mudando as proteínas expostas ao sistema imunológico ao longo do ciclo. Isso torna a escolha dos melhores alvos particularmente difícil.

Estudos em animais já exploraram vacinas de RNAm contra proteínas do parasita, estratégias para gerar células T de memória residentes no fígado e até vacinas que codificam antígenos relacionados à transmissão. Pesquisas publicadas em 2025 e 2026 também mostraram novas formas de melhorar respostas protetoras em modelos animais.

Entretanto, o estágio dessa área é diferente do observado no câncer. Revisões recentes do desenvolvimento de vacinas de RNAm classificam os programas de malária principalmente como pré-clínicos. Portanto, não há base para afirmar que uma vacina de RNAm contra malária esteja hoje em testes clínicos avançados comparáveis aos estudos de fase 3 de oncologia.

Já existem vacinas contra malária, mas elas não usam RNAm

A Organização Mundial da Saúde recomenda atualmente as vacinas RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M para crianças em regiões onde a malária por Plasmodium falciparum é endêmica. Elas representam um avanço importante na saúde pública, mas não são vacinas de RNAm. As pesquisas com RNAm procuram complementar esse progresso com plataformas potencialmente mais adaptáveis.

Por que câncer, HIV e malária são desafios tão diferentes?

A mesma plataforma tecnológica não resolve automaticamente doenças biologicamente distintas. No câncer, o alvo pode variar de pessoa para pessoa e o próprio tumor pode criar um ambiente que inibe as células imunes. No HIV, a diversidade viral e a dificuldade de gerar anticorpos amplamente neutralizantes são obstáculos centrais. Na malária, o parasita possui um ciclo de vida complexo e muda de forma e de antígenos durante a infecção.

Além disso, a tecnologia de RNAm ainda enfrenta desafios gerais: estabilidade da molécula, escolha do sistema de entrega, direcionamento para os tecidos corretos, duração da resposta imunológica, efeitos adversos, armazenamento e custo de produção.

No caso das vacinas personalizadas contra o câncer, existe ainda um desafio logístico particular. É necessário sequenciar o tumor, prever quais mutações podem produzir bons neoantígenos e fabricar uma vacina específica para aquele paciente — tudo isso em tempo clinicamente útil e com controle rigoroso de qualidade.

O que esperar das vacinas de RNAm além da COVID?

A maior transformação trazida pela COVID-19 talvez não tenha sido apenas uma nova vacina, mas a validação em grande escala de uma plataforma. O RNAm pode ser reprogramado para produzir diferentes proteínas, o que abre espaço para tratamentos e vacinas muito mais personalizados.

Hoje, porém, os níveis de evidência são diferentes. Em oncologia, candidatos personalizados já alcançaram estudos randomizados e fase 3. No HIV, ensaios em humanos estão mostrando que estratégias sofisticadas conseguem ativar respostas imunes desejadas, mas ainda falta demonstrar proteção efetiva. Na malária, candidatos de RNAm continuam majoritariamente em pesquisa pré-clínica, enquanto as vacinas já recomendadas pela OMS utilizam outras tecnologias.

Os próximos anos mostrarão quais dessas ideias conseguem atravessar a etapa mais difícil da ciência translacional: sair de uma resposta imunológica interessante e produzir um benefício clínico seguro, reproduzível e relevante para milhões de pessoas.

Acompanhar os resultados de estudos maiores — e não apenas anúncios iniciais — será a melhor forma de separar avanços reais de expectativas prematuras.

Fontes e leituras